Sidarta Ribeiro, neurocientista e autor de Oráculo da noite: a história e a ciência do sonho define o sonho como uma reativação de memórias de experiências passadas de forma a recombiná-las, gerando estratégias futuras. E, sendo ou não visto com um caráter premonitório, sabemos que esse tema gera fascínio, talvez exatamente por ainda termos tão poucas informações sobre ele.
Afinal, sonhar é bom? O que é o sonho? E qual é a influência da qualidade do sono nesse processo? Continue no texto para descobrir a resposta destas e de outras perguntas.

Por que sonhamos?
A primeira coisa que precisamos definir é o que é o sonho. Para isso, é imprescindível entender que o sono é fundamental para a manutenção do nosso organismo. É dormindo que conseguimos a maleabilidade cerebral que permite que cada ser humano se adapte a realidade individual e social a qual faz parte. Além disso, é nesse momento que regulamos o sistema imune e consolidamos a memória.

VOCÊ SABE POR QUE SONHAR É BOM?
Assim, enquanto nosso organismo passa por esses processos de revisão e preservação, os sonhos se formam em nossa mente. Geralmente, é durante o sono REM (ou rapid eye movement) que esse fenômeno psíquico acontece, mesmo que ele nem sempre se restrinja especificamente a esse estágio.
O sono, sobretudo o sono REM e o ato de sonhar são um fator sustentável, embora subestimado, subjacente a muitos elementos que formam nossa engenhosidade singular e façanhas humanas como a linguagem e o uso de ferramentas (…).
Apesar de algumas pessoas acreditarem que não sonham, é possível afirmar que praticamente todos nós experimentamos esse fenômeno quase todas as noites, mesmo que poucos se lembrem do seu conteúdo.
É durante o sonho que problemas e desafios rotineiros são analisados, que o desempenho para realizar determinadas tarefas é melhorado e que a criatividade é trabalhada. Isso porque ele possui um teor de simulação, especialmente quando, durante a vigília, estamos enfrentando situações mais complexas.
Como um entrevistador perspicaz, o sonho adota a abordagem de interrogar nossa experiência autobiográfica recente e posicioná-la habilmente dentro do contexto de experiências e realizações passadas, elaborando uma tapeçaria complexa de significados.
Desta forma, os sonhos são considerados efeito colateral de processos de consolidação da memória dependentes do sono e podem ter a função de alertar ou simular ameaças futuras.

AFINAL, SONHAR É BOM OU RUIM? A VERDADE É QUE, APESAR DE DESCONFORTÁVEIS, ATÉ MESMO OS PESADELOS PODEM TER A FUNÇÃO DE ALERTA PARA AMEAÇAS.
O sonho e as fases do sono
Também segundo Sidarta Ribeiro, é a complexidade dos sonhos que muda durante o ciclo do sono. Assim, ele é mais complexo durante o sono REM, pode aparecer apenas com imagens aparentemente desconexas durante as fases iniciais e até mesmo como pensamentos no sono de ondas lentas (ou não-REM).
Sonhos lúcidos
Uma das maiores curiosidades quando falamos sobre o assunto, os sonhos lúcidos são aqueles em que sabemos que estamos sonhando e, por isso, podemos (ao menos de forma parcial) controlar a direção do que sonhamos. Na maior parte das vezes, esse é um fenômeno que acontece pela manhã e tem um pico maior de possibilidade durante a adolescência.
Praticado de forma mais disciplinada no oriente, existem formas de incentivar esse tipo de situação. Dentre as possibilidades para se sonhar de forma lúcida destacamos:
_ Dispender mais horas de sono;
_Olhar para o relógio várias vezes ao dia se questionando se aquilo é um sonho;
_Acordar mais cedo e passar algum tempo lendo antes de dormir novamente.
Como se lembrar dos sonhos?
Caso você seja uma das pessoas que relata dificuldade para lembrar dos sonhos da noite anterior e sente vontade de recuperar essa capacidade, temos uma boa notícia: lembrar do que você sonhou é fácil, exige apenas um pouco de disciplina!
Deixe um caderno ao lado da cama e, assim que acordar, separe um tempo para tentar lembrar e anotar aquilo que sonhou. Aqui, é importante que você não se levante antes de escrever, realmente fazendo um esforço para que a sua mente retome para as memórias formuladas durante a noite.
Ainda segundo Sidarta Ribeiro, a autogestão antes de dormir também pode ser fundamental para que essas cenas, imagens e pensamentos sejam lembrados. Assim, repetir frases como “vou sonhar, vou lembrar e vou registrar” antes de fechar os olhos pode te ajudar a agarrar os fiapos de memória na manhã seguinte, formulando, com um pouco de prática, uma narrativa completa e complexa.

PARA COMEÇAR A SE LEMBRAR DOS SONHOS DA NOITE ANTERIOR, DEIXE UM CADERNO E UMA CANETA AO LADO DA CAMA E, ANTES DE LEVANTAR, PASSE UM TEMPO ANOTANDO OS FRAGMENTOS DE MEMÓRIA QUE SURGIREM.
E, a partir do momento em que essas lembranças se tornam constantes, reflita sobre o seu conteúdo ou procure a ajuda de um psicólogo. Sonhos são capazes de modificar a nossa vida e percepção e, exatamente por isso, buscar lembrar deles precisa ser uma prioridade.
O sonho e a história da humanidade
Relatos de sonhos estão presentes na história humana desde que temos registros escritos. Pesadelos, premonições, ideias geniais, fragmentos aparentemente sem sentido e suas mais diversas interpretações são analisados e estudados por neurocientistas, psicanalistas e os mais diversos curiosos ao longo do globo, de Freud até você, que está lendo este texto.
Esse fascínio todo acontece porque é através deles que artistas como Salvador Dalí ou mesmo Paul McCartney tiraram inspirações para obras e músicas que marcaram toda a humanidade. Foi também por eles que grandes descobertas científicas, como a tabela periódica de Mendeleev, foram inicialmente consideradas.
Assim, sonhar é bom e fundamental para a evolução e desenvolvimento da humanidade. Esse fenômeno, além de possuir um caráter diagnóstico, ainda permite a desintoxicação do cérebro, reverbera memórias e ativa a criatividade.
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